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O boom da IA ainda tem combustível — mas o dinheiro ficou mais caro

O boom da IA ainda tem combustível — capex, infraestrutura e retorno

O mercado está novamente a fazer a pergunta que acompanha praticamente todas as grandes revoluções tecnológicas: estamos perante uma transformação económica sustentável ou diante de uma bolha prestes a rebentar?

No caso da inteligência artificial, a resposta mais honesta não está nos extremos. A IA é real, a procura por capacidade computacional também é real e as receitas começam a aparecer. Ao mesmo tempo, a dimensão do investimento tornou-se tão grande que já não basta acreditar no potencial da tecnologia. As empresas terão de provar que conseguem transformar centenas de milhares de milhões de dólares em receitas, fluxo de caixa e retorno sobre o capital.

Uma análise recente da Barron’s, baseada em grandes ciclos de investimento dos últimos 250 anos, apresenta uma conclusão interessante: o atual boom de IA provavelmente sofrerá uma correção em algum momento, mas a história sugere que esse momento ainda não chegou.

Um ciclo de investimento sem precedentes

Desde o início de 2024, estima-se que tenham sido investidos cerca de 500 mil milhões de dólares em chips, 350 mil milhões em infraestrutura elétrica, 200 mil milhões em construção e 100 mil milhões em redes. Os principais hyperscalers — Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta — poderão investir aproximadamente 2 biliões de dólares adicionais nos próximos dois anos.

Isto ajuda a explicar por que razão o tema da IA deixou de beneficiar apenas os fabricantes de semicondutores. Cada novo data center exige terrenos, construção, transformadores, geração e distribuição de energia, refrigeração, fibra ótica, servidores, memória, cabos e equipamentos de rede.

O investimento de uma Big Tech transforma-se na receita de dezenas de fornecedores. É esse mecanismo que continua a sustentar empresas distribuídas por toda a cadeia de infraestrutura digital.

O que 250 anos de história nos ensinam

Os grandes ciclos de infraestrutura tendem a seguir um padrão semelhante. Surge uma tecnologia transformadora, o capital começa a entrar, as avaliações sobem, a capacidade é construída rapidamente e o crédito passa a financiar uma parcela crescente do investimento. Foi assim com os caminhos de ferro, a eletrificação, a internet e o setor imobiliário.

A análise da Barron’s identifica uma referência histórica a que chama “regra dos 25%”. Em vários desses ciclos, os problemas mais graves surgiram quando o investimento acumulado se aproximou de 25% do tamanho da economia.

Com o PIB dos Estados Unidos próximo de 30 biliões de dólares, essa zona de risco corresponderia a aproximadamente 7,5 biliões. Pelas projeções atuais, o investimento em IA só se aproximaria desse patamar no início da década de 2030.

Não considero essa regra uma lei económica. A composição do financiamento, a velocidade da obsolescência tecnológica e a rentabilidade dos projetos importam tanto como o montante agregado. Ainda assim, o paralelo histórico ajuda a perceber por que razão um investimento gigantesco não significa necessariamente que o ciclo esteja perto do fim.

O maior risco não é a tecnologia: é o custo do capital

Enquanto os data centers eram financiados sobretudo pelo fluxo de caixa das Big Tech, o mercado tinha poucas razões para se preocupar. Essas empresas possuíam balanços extremamente fortes e capacidade suficiente para absorver vários anos de investimento.

Agora, porém, o ciclo está a tornar-se mais dependente de dívida, private credit, veículos financeiros e acordos de financiamento com fornecedores. Isso muda a natureza do risco.

Se as yields dos Treasuries continuarem a subir, o custo de financiamento dos projetos também aumentará. Um data center que parece altamente rentável com capital barato pode deixar de ser atrativo quando o custo da dívida sobe, a construção atrasa ou os equipamentos ficam obsoletos mais depressa do que o previsto.

Por isso, considero que o principal gatilho de uma eventual correção não será uma notícia a dizer que “a IA não funciona”. Será provavelmente uma combinação de:

  • juros persistentemente elevados;
  • crescimento do endividamento;
  • menor geração de fluxo de caixa livre;
  • atrasos na construção e na ligação à rede elétrica;
  • receitas de IA abaixo do necessário para remunerar o capital investido.

Infografia: o que sustenta e o que ameaça o ciclo de investimento em IA

A monetização já começou — mas terá de acelerar

O argumento bullish tornou-se mais sólido porque já existem sinais concretos de monetização. A procura por cloud continua a crescer, os modelos estão a ser integrados em software empresarial e o consumo de inferência aumenta à medida que o custo por utilização diminui.

Este último ponto é importante. Chips e modelos mais eficientes não significam necessariamente menos procura por capacidade computacional. Quando o custo de uma tecnologia cai, surgem novas aplicações, mais utilizadores e volumes de consumo muito maiores. É o chamado paradoxo de Jevons.

Contudo, o mercado começará a distinguir cada vez mais crescimento de utilização de crescimento rentável. Uma empresa pode apresentar mais clientes, mais tokens processados e mais capacidade instalada sem gerar um retorno adequado sobre o investimento.

Na próxima fase do ciclo, anunciar mais capex já não será suficiente. Os investidores vão querer perceber quanto desse investimento se converte em receitas incrementais, margens e fluxo de caixa.

Quem poderá continuar a beneficiar

Enquanto o capex permanecer em expansão, continuo a ver oportunidades ao longo de toda a cadeia:

  • Computação e semicondutores: $NVDA, $TSM, $AVGO e $MU;
  • Energia e gestão térmica: $VRT e $GEV;
  • Construção e infraestrutura elétrica: $FIX;
  • Fabrico eletrónico e integração de sistemas: $CLS;
  • Conectividade e fibra ótica: $GLW.

Isso não significa que todas estas ações estejam baratas ou que subirão em linha reta. Uma excelente empresa pode ser um mau investimento quando a avaliação já pressupõe execução perfeita. A seleção deve combinar crescimento estrutural, qualidade do balanço, visibilidade das encomendas, margens e preço pago.

Também é importante separar os fornecedores dos compradores de infraestrutura. No curto prazo, o capex dos hyperscalers representa receita para a cadeia. Para a Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta, porém, representa saída de caixa e uma obrigação de gerar retorno futuro. O mesmo dólar pode ser bullish para o fornecedor e, temporariamente, pressionar o fluxo de caixa do cliente.

Os cinco indicadores que estou a acompanhar

Para avaliar se o ciclo continua saudável, considero estes sinais mais úteis do que simplesmente perguntar se existe uma bolha:

  1. Guidance de capex dos hyperscalers: cortes simultâneos seriam um alerta importante.
  2. Crescimento das receitas de cloud e IA: precisa de acompanhar gradualmente o aumento da capacidade.
  3. Fluxo de caixa livre: mostra quanto do investimento já exige dívida ou estruturas alternativas.
  4. Treasury a 10 anos e spreads de crédito: medem a pressão do custo de capital.
  5. Backlog, encomendas e cancelamentos: revelam primeiro qualquer enfraquecimento na cadeia de data centers.

Nenhum destes indicadores, isoladamente, determina o fim do ciclo. Uma deterioração conjunta, porém, mudaria significativamente a relação entre risco e retorno.

Conclusão: ainda há espaço, mas a disciplina será decisiva

A minha leitura é que a infraestrutura de IA continua num ciclo estrutural de expansão. Ainda existe procura, os hyperscalers continuam a elevar investimentos e os fornecedores apresentam crescimento real de receitas e lucros. Portanto, não vejo evidência suficiente para abandonar a tese apenas porque os valores absolutos parecem gigantescos.

Mas o ciclo está a amadurecer. Quanto maior se tornar a dependência de crédito, maior será a sensibilidade aos juros e menor será a tolerância do mercado para empresas que prometem monetização sem a demonstrar.

A questão correta já não é simplesmente “existe uma bolha?”. A questão é: que empresas continuarão a gerar retorno quando o capital deixar de ser abundante e o mercado passar a exigir resultados?

É aí que acredito que estará a diferença entre participar numa das maiores transformações tecnológicas da história e ficar preso aos ativos errados quando o ciclo finalmente mudar.

Este artigo representa uma análise pessoal e não constitui recomendação de investimento. Todo o investimento envolve risco, incluindo a possível perda do capital.

Fonte de referência: Al Root, “Is the AI Capex Bubble About to Burst? What 250 Years of Market History Tell Us”, Barron’s, 28 de agosto de 2026: barrons.com

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