Há um ano, a Google Cloud ganhava cerca de 24 dólares de lucro operacional por cada 100 dólares de vendas. No terceiro trimestre de 2026, ganhou 36. Pelo meio, as receitas mais do que duplicaram. Seria difícil pedir melhor a um negócio em expansão. No entanto, quem comprou ações da Alphabet para participar no crescimento da inteligência artificial depara-se com uma conta menos óbvia. No mesmo trimestre, a empresa no seu conjunto gastou em instalações e equipamento mais dinheiro do que gerou com a atividade. A bolsa não perdoou: as ações da Alphabet caíram cerca de 19% em outubro.
Estas duas contas medem coisas diferentes, e dessa diferença depende boa parte do valor da ação. O lucro da Cloud mostra o que a Alphabet já ganha ao vender capacidade informática. O fluxo de caixa livre mostra quanto dinheiro sobra depois de pagar, entre outras coisas, pelos servidores que permitirão fazer a próxima venda.
A pesquisa ainda domina, mas a Cloud já gera 11 mil milhões de dólares de lucro operacional
A pesquisa Google e os serviços associados geraram 63,4 mil milhões de dólares no terceiro trimestre, mais 12% do que um ano antes. Continua a ser um negócio com mais do dobro das receitas da Google Cloud. O que mudou foi a escala do segundo negócio. Num ano, a Cloud passou de 15,2 para 30,7 mil milhões de dólares em receitas. O lucro operacional subiu de 3,6 para 11,1 mil milhões. Resultados da Alphabet, 3.º trimestre de 2026.
Por cada dólar adicional de receitas em relação ao trimestre homólogo, a Cloud gerou cerca de 48 cêntimos de lucro operacional adicional. Esse resultado ajuda a justificar a construção de capacidade. Fica por saber se a rentabilidade se mantém à medida que mais equipamento entra em serviço.

Um centro de dados começa a consumir capital antes de receber o primeiro cliente. Ilustração conceptual gerada com IA.
O que aconteceu ao dinheiro da Alphabet?
Um servidor entra nas contas em dois tempos. Quando a empresa o paga, o dinheiro sai da tesouraria. Na demonstração de resultados, o custo do equipamento distribui-se pelos anos em que se espera utilizá-lo, através da depreciação. Na Alphabet, essa fatura já começou a chegar: a depreciação trimestral passou de 5,6 para 8,4 mil milhões de dólares num ano. Durante uma expansão rápida, o lucro pode crescer ao mesmo tempo que diminui o dinheiro disponível para dividendos, recompras de ações ou novos negócios.
| Mil milhões de dólares | 1.º tri. 2026 | 2.º tri. 2026 | 3.º tri. 2026 |
|---|---|---|---|
| Caixa gerado pela atividade | 45,8 | 39,1 | 42,3 |
| Investimento em ativos fixos | 35,7 | 44,9 | 51,4 |
| Fluxo de caixa livre | 10,1 | −5,9 | −9,1 |
Alphabet, contas consolidadas. Valores arredondados individualmente.
Em seis meses, o investimento trimestral passou de 35,7 para 51,4 mil milhões de dólares, enquanto o caixa gerado pela atividade passou de 45,8 para 42,3 mil milhões. Estes valores abrangem toda a Alphabet. A empresa ainda gerou 19,7 mil milhões de dólares de fluxo de caixa livre nos doze meses até setembro, mas os dois últimos trimestres consumiram parte do excedente acumulado. Resultados da Alphabet, 3.º trimestre de 2026.
Quem está a pagar a expansão?
Em 2025, a Alphabet ainda devolvia dinheiro aos acionistas através de recompras de ações: 39,8 mil milhões de dólares nos primeiros nove meses do ano. Nos mesmos nove meses de 2026, as recompras foram zero. A empresa fez o caminho inverso. Vendeu 42,9 mil milhões de dólares em novas ações, emitiu 19,1 mil milhões em ações preferenciais convertíveis e captou 85,2 mil milhões em dívida. O número de ações diluídas subiu 1,4% num ano.
O balanço aguenta: no fim de setembro, a Alphabet tinha 265,1 mil milhões de dólares em caixa e títulos, contra 125,1 mil milhões de dívida de longo prazo. Mas, para já, a resposta à pergunta do título é desconfortável. Os dividendos continuam, e é o acionista que está a ajudar a financiar a expansão, em vez de receber o excedente. Resultados da Alphabet, 3.º trimestre de 2026.
As ações da Alphabet estão mesmo a 14,6 vezes os lucros?
No fecho de 30 de outubro, as ações de classe A da Alphabet (GOOGL) cotavam a 279,84 dólares. Com o lucro dos últimos quatro trimestres, 19,16 dólares por ação, o múltiplo era de 14,6 vezes os lucros. As de classe C (GOOG), que tenho na carteira, têm o mesmo lucro por ação e negoceiam praticamente ao mesmo preço. Para uma empresa com a rentabilidade da Google, esse preço chama a atenção. Mas o acionista compra também uma carteira de participações noutras empresas, cujas oscilações entram no lucro publicado.
No segundo trimestre, dos 9,11 dólares de lucro diluído por ação, 6,26 vieram dessas participações. No terceiro, retiraram 0,55 dólares. Somando quatro trimestres, 8,21 dos 19,16 dólares de lucro por ação vieram do efeito líquido dessas oscilações, depois de impostos. Resultados da Alphabet, 2.º trimestre de 2026 e 3.º trimestre de 2026.
Se retirarmos apenas esse efeito, sobram 10,95 dólares por ação. À mesma cotação, o múltiplo passa para 25,6 vezes. É uma conta ilustrativa com resultados passados. As participações têm valor próprio, mas seria exigente contar com a repetição anual dos ganhos recentes para justificar o preço de entrada. Para reproduzir a conta de quatro trimestres, ver também o 4.º trimestre de 2025 e o 1.º trimestre de 2026.
O que teria de acontecer para a aposta em IA compensar?
No fim de setembro, a Google Cloud tinha cerca de 561 mil milhões de dólares em contratos com clientes ainda por reconhecer como receita. Três meses antes eram 514 mil milhões (The Motley Fool). É o argumento mais forte a favor da expansão: há procura contratada para a capacidade que a Alphabet está a instalar. A incógnita é quanto custará cumprir esses contratos e que margem ficará depois de fornecer o serviço. Relatório trimestral da Alphabet.
O cenário mais favorável até dispensa outra duplicação das vendas. Basta imaginar que os clientes passam a utilizar mais horas dos servidores já instalados. A Alphabet pode faturar mais sobre equipamento já pago e o fluxo de caixa livre pode recuperar, mesmo que o crescimento percentual das receitas abrande. A margem operacional da Cloud dá ao investidor uma primeira pista sobre essa utilização.
Há também um cenário menos confortável. Se servir cada nova vaga de clientes exigir outra geração de chips, mais energia e novos centros de dados, o lucro da Cloud pode continuar a crescer sem que sobre muito mais dinheiro no fim do ano. Se a procura abrandar entretanto, a empresa continuará a reconhecer a depreciação do equipamento que já comprou. E o investimento ainda não chegou ao pico: a Alphabet mantém a previsão de 195 a 205 mil milhões de dólares de investimento em 2026, o que implica entre 63 e 73 mil milhões só no quarto trimestre, e a direção antecipou nova subida significativa em 2027 (teleconferência de resultados, resumo FourWeekMBA).
A minha leitura é favorável ao negócio e mais exigente quanto ao preço. A pesquisa continua a crescer e a Cloud já provou que consegue vender mais com margens mais altas. O aparente desconto da ação depende, porém, de lucros financeiros difíceis de repetir. Nos próximos resultados, vou olhar primeiro para a margem da Cloud e, logo depois, para a distância entre o dinheiro gerado pela Alphabet e o investimento em equipamento. Se a margem se mantiver e essa distância voltar a ser positiva durante vários trimestres, o argumento a favor da ação ganha força.
E na carteira Santiago1000?
A Alphabet continua na carteira. Depois destes resultados, perdeu força no meu processo de seleção, sobretudo no momentum do preço e na geração de caixa, enquanto a qualidade do negócio continua alta. Não vou reforçar a posição enquanto o fluxo de caixa livre não voltar a ser positivo. O peso será revisto nas próximas leituras semanais, com as mesmas regras que aplico ao resto da carteira. As posições e os pesos atualizados estão no meu perfil público na eToro (link de afiliado).
Nota legal e declaração de interesses
Este artigo expressa a opinião do autor à data de 1 de novembro de 2026 e destina-se a fins informativos. Não constitui aconselhamento financeiro personalizado nem recomendação de compra ou venda. O investimento em ações envolve risco de perda de capital, e resultados passados não garantem resultados futuros. À data da análise, o autor detinha ações da Alphabet de classe C (GOOG) na carteira Santiago1000. O autor participa no programa Popular Investor da eToro, que o pode remunerar em função dos investidores que o copiam, e este site contém links de afiliado da eToro. Declaração de interesses e informação sobre risco.
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